Corrupção na ALMT ocorria desde o governo Dante de Oliveira, diz Riva

Corrupção na ALMT ocorria desde o governo Dante de Oliveira, diz Riva

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Apontado como o político mais ficha suja do país, o ex-deputado José Riva confessou, em depoimento solicitado pela defesa dele, que participou de desvios de dinheiro público na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) de 1995 a 2002, durante a gestão do ex-governador Dante de Oliveira, falecido em 2006. No relato, feito à juíza Selma Arruda, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, na quarta-feira (30), Riva disse que, à época, a gestão Dante de Oliveira financiava parte da bancada de parlamentares de Mato Grosso.

O G1 tentou entrar em contato com a esposa do ex-governador Dante de Oliveira, Thelma de Oliveira, mas não conseguiu até a publicação desta matéria.

O ex-deputado alegou à magistrada que resolveu assumir a culpa pelos crimes que cometeu, depois de “uma profunda reflexão”. Para o depoimento, o ex-deputado preparou um roteiro de próprio punho para, segundo ele, se lembrar de todos os atos cometidos.“Isso consumiu muitos anos da minha vida, consumiu minha saúde e meu dinheiro”, disse.

De acordo com Riva, quando assumiu seu mandato de deputado na ALMT em 1995, ele se deparou com uma situação que já ocorria dentro do órgão. “Eram dívidas com factorings e agiotas, a maior parte com o Arcanjo, que já vinham se arrastando há muito tempo e eram maiores que o orçamento da casa”, afirmou.

O dinheiro da dívida, ainda segundo o ex-parlamentar, foi usado para pagar dívidas de campanha e eleições da mesa diretora na ALMT. “Não eram dívidas da minha gestão, mas eu assumi o compromisso de pagar porque fui pressionado e ameçado”, disse.

No depoimento, Riva conta que, depois de assumir o cargo, ele foi convidado a participar de uma reunião na casa do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, condenado a 44 anos de prisão pela morte de um empresário. “Não tenho como me esquecer dessa reunião. Achei que não fosse voltar para casa. O Arcanjo estava nervoso e pedia que os valores fossem pagos”, contou.

O dinheiro cobrado pelo ex-bicheiro, segundo Riva, chegava a aproximadamente R$ 25 milhões, em valores não corrigidos. À época, o ex-deputado, alegou que recorreu ao ex-governador, Dante de Oliveira, para solicitar dinheiro extraoficial. “Ele [Dante] aceitou repassar R$ 22 milhões para pagarmos conta da ALMT com o Arcanjo”, declarou.

Segundo Riva, de 1995 a 2003, a gestão estadual repassou dinheiro de origem ilegal para deputados e servidores da ALMT usarem em benefício próprio e para pagamento de dívidas. Entre eles, o grupo que se beneficiou com o dinheiro ilegal, estão o prefeito eleito Emanuel Pinheiro (PMDB), ex-deputado Humberto Bosaipo e o deputado estadual Gilmar Fabris (PSD).

Emanuel Pinheiro, que está em viagem, por meio de nota, informou que repudia as declarações de Riva e negou ter recebido vantagens indevidas durante mandato na ALMT. O G1 tentou entrar em contato Gilmar Fabris e Humberto Bosaipo, no entanto, não conseguiu até a publicação desta reportagem.

Desvios na ALMT
De acordo com Riva, os desvios na ALMT eram feitos através de empresas de fachada ou que não realizam os serviços paras os quais tinham sido contratados. “Essas empresas emitiam nota fiscal com valor maior do que realmente era e esse dinheiro voltava para pagarmos as dívidas”, afirmou. Entre as empresas contratadas pela ALMT estavam gráficas, agências de turismo, restaurantes e hotéis.

O contrato com essas empresas também era feito de maneira ilícita, segundo Riva. “Tínhamos o que se chama de licitação de mural. Só divulgávamos no mural da Assembleia para facilitar que as empresas usadas para lavagem de dinheiro ganhassem a licitação”, declarou.

Além do superfaturamento, o ex-deputado contou que entre empréstimos em nome de servidores ativos e servidores fantasmas fizeram parte do esquema para pagamento de dívida.

Segundo Riva, as dívidas com factorings e com o ex-bicheiro continuaram aumentando com o passar do tempo. “Novas dívidas eram feitas quando o dinheiro não dava para pagar e assim foi seguindo”, disse.

De acordo com o Ministério Público, entre 1999 e 2002, foram realizados mais de 480 pagamentos em cheques para empresas que prestaram serviços para a ALMT, de forma ilegal.

André Souza do G1 MT/Foto: Renê Dióz

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