O futuro de Temer em 5 mesóclises

O futuro de Temer em 5 mesóclises

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O panelaço de ontem à noite, em protesto contra a desfiguração do projeto de lei anticorrupção na Câmara dos Deputados, marca uma nova fase na crise política brasileira, a mais aguda desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Os mesmos manifestantes que pediram a queda de Dilma protestam agora pela saída do presidente Michel Temer. Seis ministros já caíram em poucos meses. Temer resistirá?

Não é verossímil, até o momento, a possibilidade de um novo impeachment. Não há chance de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, acate um pedido contra Temer. Mas um governo pode definhar de várias formas, o impeachment é apenas a mais radical. O enfraquecimento de Temer é real. Cinco fatores determinarão o futuro do governo das mesóclises:

1) Protestos – Os novos protestos têm um potencial inesperado: unir quem foi às ruas contra e a favor de Dilma no início do ano. Se a população aderir em massa a manifestações contra a impunidade dos corruptos, contra congressistas que legislam em causa própria e contra a paralisia das investigações no Supremo Tribunal Federal, criar-se-á um clima intolerável.

2) Odebrecht – Todo o movimento dos congressistas para esvaziar a Operação Lava Jato tem uma razão claríssima: a megadelação da Odebrecht. Pluripartidária, ela promete atingir todo tipo de animal na fauna política brasileira e devastar o ministério de Temer. Transformar-se-á em combustível para o item 1.

3) Economia – O PIB não dá sinais de reagir. Teremos mais um ano de recessão pela frente. Embora Temer, ao que tudo indica, vá aprovar no Congresso o principal item de sua pauta econômica – a imposição de um teto para gastos públicos –, todos os demais ficarão em suspenso se a principal ocupação dos congressistas for salvar a própria pele. Ficam reduzidas as chances de reformas da Previdência, trabalhista e para diminuir o tamanho do Estado. Sem a transição para uma nova fase de crescimento, aprofundar-se-á ainda mais nosso buraco – e o do próprio governo.

4) Congresso – A principal diferença de Temer para Dilma é sua capacidade de articulação política. Temer ainda tem domínio razoável sobre o Congresso. Embora não consiga levar adiante agendas impopulares, obteve sucesso em todas as votações recentes. Mas tal apoio está baseado numa coalizão heterogênea. O PSDB pede mais espaço para não abandonar o barco. Os alvos – atuais e prováveis – da Lava Jato estão num clima de salve-se-quem-puder. O vacilo de Temer no caso Geddel revela o preço que ele paga por seu estilo discreto e avesso a conflitos. Num clima político conflagrado, tal estilo torná-lo-á mais frágil.

5) Judiciário – A principal arma brandida pelos parlamentares para sufocar a Lava Jato são as leis contra abuso de autoridade. O Ministério Público foi ingênuo politicamente, ao acreditar que bastaria o apoio da população para aprovar um pacote anticorrupção cheio de medidas complexas e controversas. Os parlamentares foram mais espertos. A esta altura, se o Senado rejeitar a emenda contra abuso de autoridade embutida na Câmara, o país terá saído no lucro. Pelo menos os procuradores, policiais e juízes poderão continuar a trabalhar em paz. Se ela passar, o Supremo Tribunal Federal (STF) será na certa acionado. É também no STF que já tramitam os casos de corrupção mais importantes. O futuro da Lava Jato convergirá para lá. São inúmeros os conflitos potenciais, tanto com o Legislativo quanto com o Executivo. Ampliar-se-á o risco de crises institucionais.

Dos cinco fatores, Temer tem influência decisiva em apenas dois: os itens 3 e 4. Se a economia não reagir e ele perder força política no Congresso, mesóclise alguma salvá-lo-á.

G1

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